“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” – Salmo 90:12

Há uma matemática estranha na vida: quando somos jovens, o tempo nos sobra e nos escorre pelos dedos como areia que não sabemos guardar. Não tínhamos consciência dele e, às vezes, podíamos contá-lo através da duração de um desenho na TV. Adiar era um verbo que conjugávamos sem culpa, “amanhã eu faço, amanhã eu ligo, amanhã eu vivo” . Éramos ricos em tempo e pobres em consciência dele.
Depois, a experiência chega e, com ela, a conta inversa. Os dias encurtam, os anos passam a correr, e descobrimos, com certo espanto, que o tempo que antes sobrava agora falta. Não porque haja menos horas no dia, mas porque finalmente aprendemos o seu valor. É a ironia amarga da maturidade: entendemos o preço do tempo justamente quando o saldo diminui. O salmista sabia disso quando pediu a Deus não mais dias, mas sabedoria para contá-los. Contar os dias não é uma operação aritmética, é um ato de lucidez.
Pense numa rosa. Ela desabrocha, perfuma, resplandece e murcha. Suas pétalas caem uma a uma, e em poucos dias resta apenas a lembrança de sua beleza. Agora ,pense numa flor artificial: perfeita, imutável, eternamente aberta. Ela nunca murcha. E, no entanto, ninguém para diante dela com o coração apertado de encanto. Por quê? Porque a beleza da rosa está precisamente na sua finitude. É porque ela vai morrer que precisamos olhá-la agora. A flor de plástico pode esperar; a rosa, não. O que é eterno dispensa a nossa atenção e o que é passageiro a exige. Assim também é a vida: a nossa finitude não é um defeito da existência, é o que lhe confere urgência e preciosidade. Uma vida sem fim seria como a flor artificial: sempre disponível, nunca preciosa.
E, contudo, nunca desperdiçamos o tempo e a nossa atenção com tanta eficiência quanto hoje. Abrimos o telefone “só por cinco minutos” e, quando erguemos os olhos, uma hora se foi , engolida por vidas alheias, indignações passageiras e vídeos que não lembraremos amanhã. O rolar infinito da tela é, talvez, a antítese perfeita do Salmo 90. Ali não se contam os dias, perde-se a conta deles. A areia escorre da ampulheta enquanto olhamos para o vidro de outra pessoa. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de perguntar com honestidade: quando entrego horas do meu único e irrepetível dia a um algoritmo, o que recebo em troca?
Não por acaso, na Câmara de Reflexões, entre os símbolos que confrontam aquele que ali medita em silêncio, repousa uma ampulheta. A areia que desce, grão a grão, diante dos nossos olhos não está ali para nos assustar, mas para nos despertar. Cada grão é um instante que não volta. A ampulheta não pergunta quanto tempo resta; pergunta o que faremos com ele. É o mesmo pedido do salmista, traduzido em vidro e areia: ensina-nos a contar. Porque quem esquece a morte desperdiça a vida , e quem a lembra, paradoxalmente, vive mais intensamente cada hora.
E aqui vai, talvez, a lição mais libertadora: contar os dias não significa preenchê-los todos de produtividade, dever e utilidade. Coração sábio não é coração ansioso. Se o que te apraz é ler um livro sem propósito, pescar em silêncio, dançar mal, cuidar do jardim, conversar sem pressa ou simplesmente não fazer nada olhando o entardecer , faze-o. Sem julgamentos, sem falsas morais, sem pedir licença aos que medem a vida em resultados, métricas e metas. O tempo bem vivido não é o tempo aprovado pelos outros; é o tempo que, ao final, não te deixa arrependido. A rosa não pede desculpas por florescer do seu jeito, no seu ritmo, pelo breve tempo que lhe cabe. Que saibamos, então, contar os nossos dias, não para temê-los, mas para habitá-los. A areia desce. A rosa é bela porque murcha. E o dia de hoje, este exatamente, não se repetirá.
Que alcancemos o coração sábio.
Daniel Guimarães Nery
Doutor em Música pela Universidade Aveiro – Portugal
Professor da Universidade Federal de Sergipe
Diretor Artístico e Regente Titular da Orquestra Sinfônica de Sergipe
Mestre Maçom da Loja Professor José Alencar Cardoso N⁰2130 – GOB/SE.