
Há milhares de anos, nosso relacionamento com as estrelas era mais profundo. Quando a humanidade começou a praticar a agricultura, surgiu uma questão decisiva: como saber a melhor época para o plantio e para a colheita? A resposta foi decifrar os padrões do firmamento. Foi então que o céu deixou de ser apenas objeto de admiração e passou a ser instrumento de previsão dos ciclos da natureza.
Com a observação sistemática do céu, nossos antepassados reconheceram que a vida humana obedecia a ritmos celestes regulares. A alternância entre luz e escuridão determinava o dia. As fases da Lua ofereciam a medida natural do mês. O movimento aparente anual do Sol revelava a sucessão das estações e, com ela, uma nova unidade, o ano. Para reconhecer com maior clareza esses movimentos, os antigos astrônomos agruparam as estrelas em padrões reconhecíveis e fizeram surgir as primeiras figuras celestes. Assim nasceram as constelações, uma espécie de escrita celeste por meio da qual se pôde medir o tempo, orientar a vida e compreender o retorno das estações do ano.
O percurso anual do Sol é chamado de eclíptica, uma espécie de avenida imaginária inclinada cerca de 23,5 graus em relação ao equador celeste. Existem quatro pontos importantes localizados na eclíptica. Dois pontos equinociais são mapeados pelas constelações de Áries e Libra. Os dois pontos solsticiais são representados por Câncer e Capricórnio. Os solstícios são os momentos em que o Sol atinge sua maior ou menor altura aparente no céu, marcando o início do verão ou do inverno.
Durante o solstício de verão, ocorre o dia mais longo do ano. Seis meses depois, no solstício de inverno, o Sol atinge sua menor altitude e o dia se torna o mais curto. Os equinócios ocorrem quando o Sol cruza o Equador Celeste. A palavra significa “noite igual”, em referência à igualdade entre dia e noite. Nos equinócios, o Sol nasce e se põe exatamente nos pontos cardeais leste e oeste. Solstícios e equinócios eram, para as antigas civilizações, os momentos mais importantes do calendário.
Para compreender plenamente a simbologia da Maçonaria, é essencial conhecer esses conceitos, pois nossa Ordem mantém forte conexão simbólica com a astronomia. Essa relação é especialmente visível no R∴E∴A∴A∴. Uma das mais importantes alegorias da Maçonaria no R∴E∴A∴A∴ é a renovação da natureza produzida pelas quatro estações do ano, cujas etapas são marcadas por eventos astronômicos, os equinócios e os solstícios.
Simbolicamente, as etapas da vida humana são comparadas a esse ciclo. As referências astronômicas, como as constelações zodiacais e os pontos solsticiais e equinociais, não são meras histórias supersticiosas. Elas foram definidas como um sistema de coordenadas celestes para acompanhar e cronometrar o drama de ressurreição e morte do iniciado, baseado nas mudanças das estações. A luz do Sol sempre foi interpretada como símbolo da sabedoria. O R∴E∴A∴A∴ simula o processo de aperfeiçoamento do iniciado, assim como a natureza segue seu ciclo de vida e morte, renascendo na luz após o inverno.
No hemisfério norte, Áries assinalava a primavera, tempo de plantio e de renascimento da natureza. Para os antigos agricultores, identificar essa figura celeste era questão de sobrevivência.
As Lojas de São João preservam, de maneira velada, uma das mais antigas referências simbólicas aos cultos solares da antiguidade. No hemisfério norte, as festas de São João Batista e São João Evangelista situam-se, respectivamente, em meados de junho e de dezembro, muito próximas dos marcos astronômicos dos solstícios de verão e de inverno. Com a expansão do cristianismo no mundo romano, antigos marcos do ciclo solar foram progressivamente absorvidos e ressignificados sob datas cristãs. Ao que tudo indica, a Maçonaria valeu-se de estratégia semelhante, utilizando essas mesmas festividades cristãs para preservar, de maneira velada, referências imemoriais aos cultos solares da antiguidade. Dessa característica solsticial nasceu, mais tarde, a designação de “Lojas de São João”.
Nenhum símbolo marcou tão profundamente a humanidade quanto o Sol. A Maçonaria, ao ressignificar o ciclo solar, converteu essas observações em metáfora, alegoria e linguagem simbólica. Como todos os seres vivos, nascemos, atingimos a maturidade e morremos. O aspecto essencial da Natureza é o ciclo contínuo de transformação, no qual vida e morte permanecem como elos inseparáveis da existência, mantidos até hoje em nossas práticas ritualísticas, em profunda relação com as antigas tradições solares, explícita no Rito Escocês Antigo e Aceito e, em outros ritos, mais discreta.
Jorge Antônio Vieira Gonçalves
Professor da Universidade Federal de Sergipe
Físico e Doutor em Ciência e Engenharia dos Materiais
Venerável mestre da Loja Constâncio Vieira, 3.300, do Grande Oriente do Brasil – SE.