Entre a tradição e o ruído do mundo

A Maçonaria atravessou séculos porque nunca dependeu apenas das circunstâncias de uma época. Mudaram os governos, as cidades, os costumes, as formas de comunicação e até a maneira como os homens se relacionam. Ainda assim, permaneceram o esquadro, o compasso, a pedra bruta e, sobretudo, a ideia de que o verdadeiro trabalho maçônico começa dentro do próprio homem.
Talvez esse seja um dos maiores desafios da Maçonaria atual.
Vivemos na época da velocidade. Tudo precisa ser rápido, visível e compartilhável. As opiniões são emitidas antes da reflexão; as aparências, muitas vezes, recebem mais atenção do que o conteúdo; títulos podem parecer mais importantes que responsabilidades; e até relações humanas passam a ser medidas por curtidas, mensagens e reconhecimento público.
A Loja, porém, deveria representar justamente o contrário.
Dentro do Templo, o homem é convidado a diminuir o ruído do mundo para escutar aquilo que normalmente evita: a própria consciência.
O perigo de uma Maçonaria apenas exterior
Uma instituição pode possuir belos templos, sessões cheias, cerimônias impecáveis e numerosos membros e, ainda assim, perder silenciosamente parte de sua essência.
Porque a força de uma Loja não está apenas na quantidade de homens que ocupam suas colunas. Está na qualidade dos homens que saem delas. O verdadeiro resultado do trabalho maçônico não deveria ser medido somente pela frequência às sessões, pelo número de iniciações ou pela quantidade de eventos realizados, mas pelas transformações produzidas em seus obreiros.
Um homem tornou-se mais justo?
Aprendeu a dominar o próprio orgulho?
FPassou a ouvir antes de julgar?
Tornou-se melhor esposo, pai, amigo, profissional e cidadão?
Aprendeu a reconhecer seus próprios erros?
Se nada disso aconteceu, talvez muitas reuniões tenham ocorrido, mas pouca pedra tenha sido realmente trabalhada.
Tecnologia: ferramenta ou distração?
A tecnologia trouxe benefícios extraordinários para a Maçonaria. Hoje irmãos separados por milhares de quilômetros podem trocar conhecimento em segundos. Livros raros foram digitalizados. Documentos históricos tornaram-se acessíveis. Pesquisas que antes exigiam viagens e bibliotecas inteiras agora podem começar na palma da mão.
Mas toda ferramenta possui dois lados.
A mesma tecnologia que aproxima também pode superficializar.
Grupos de mensagens podem substituir conversas profundas. Frases prontas podem ocupar o lugar do estudo. Fotografias de eventos podem ganhar mais importância do que os ensinamentos vividos naquela noite.
Existe uma diferença enorme entre divulgar a Maçonaria e viver a Maçonaria.
A primeira pode acontecer diante de uma câmera.
A segunda geralmente acontece quando ninguém está olhando.
Os cargos passam, o exemplo permanece
Outro desafio dos tempos modernos está na compreensão da liderança.
Na Maçonaria, cargo não deveria representar poder pessoal. Representa serviço temporário.
O Venerável deixa o Oriente.
O Secretário deixa sua mesa.
O Vigilante entrega seu malhete.
O mandato termina, mas aquilo que o irmão construiu permanece na memória da Loja.
Por isso, talvez a pergunta mais importante para quem ocupa qualquer função não seja:
“Quanto poder possuo?”
Mas:
“Que exemplo deixarei quando já não estiver aqui?”
Quando o cargo se torna instrumento de vaidade, a instituição diminui.
Quando se transforma em oportunidade de servir, a Loja cresce.
Irmandade não significa ausência de diferenças
Outro equívoco moderno é imaginar que fraternidade significa concordância permanente.
Não significa.
Homens diferentes inevitavelmente terão opiniões diferentes.
Haverá divergências, debates e até momentos de tensão.
A verdadeira fraternidade começa justamente quando dois homens conseguem discordar sem transformar o outro em inimigo.
Talvez seja fácil chamar alguém de irmão durante uma sessão harmoniosa.
Difícil é continuar tratando-o como irmão depois de uma divergência.
É nesse momento que a palavra fraternidade deixa de ser ritualística e passa a ser moral.
O desafio da qualidade
Toda instituição deseja crescer, mas crescimento sem formação pode produzir apenas números.
A Maçonaria não necessita exclusivamente de mais homens em suas colunas. Necessita de homens conscientes da responsabilidade de ocupar essas colunas, porque iniciar alguém é relativamente simples. Formar um maçom é trabalho de anos. Exige estudo. Exige convivência. Exige correção fraterna. Exige paciência. E, principalmente, exige exemplo.
Nenhuma instrução é tão poderosa quanto observar um irmão experiente viver silenciosamente aquilo que os símbolos ensinam.
Tradição não significa imobilidade
A Loja que o futuro precisa
Reflexão final
Iedo Santos
Supervisor da Elborah Multisserviços
Mestre Maçom | Secretário A∴R∴L∴S∴ Universitária Sergipe d’El Rey nº 4703 – GOB-SE