Maçonaria e Religião: entre a divergência histórica e a construção do diálogo

A relação entre a Maçonaria e determinadas tradições religiosas, Igreja Católica Romana e as Igrejas Ortodoxas — as da Grécia, Rússia e Sérvia — é marcada por diferentes posicionamentos. Essas igrejas emitiram declarações considerando incompatível a participação de seus membros na Maçonaria.

Igrejas evangélicas — Não existe uma posição única entre os evangélicos. Igrejas de tradição reformada, batista, pentecostal e neopentecostal frequentemente condenam ou desaconselham a filiação na Maçonaria, alegando preocupações com juramentos, simbolismo e aspectos religiosos presentes nos rituais. Outras denominações deixam a decisão à consciência do fiel.

1 – Testemunhas de Jeová

Desaconselham fortemente a participação em organizações como a Maçonaria, entendendo que a lealdade do cristão deve ser exclusivamente a Deus.

1 – Alguns grupos islâmicos

Em diversos países de maioria muçulmana, autoridades religiosas emitiram pareceres (fatwas) contra a Maçonaria, embora isso não represente uma posição única de todo o Islã.

Religiões que geralmente não possuem condenação oficial

— Espiritismo.

— Judaísmo (não há uma posição universal; varia conforme a corrente e o rabino).

— Hinduísmo.

— Budismo.

— Religiões afro-brasileiras, como Candomblé e Umbanda.

Nessas tradições, normalmente não existe uma proibição institucional à participação na Maçonaria. Já com Igreja a Católica Romana, tem-se um dos mais duradouros debates da história moderna. Ao longo de quase três séculos, documentos oficiais, posicionamentos doutrinários e acontecimentos políticos contribuíram para consolidar um ambiente de desconfiança recíproca. Apesar disso, o mundo contemporâneo, marcado pelo pluralismo e pela liberdade religiosa, oferece novas oportunidades para que essas instituições encontrem espaços de convivência respeitosa.

A oposição histórica

Entre as religiões existentes, a Igreja Católica Romana é a que mantém, de forma mais contínua e oficial, uma posição de incompatibilidade em relação à Maçonaria.

As razões dessa oposição podem ser sintetizadas em cinco aspectos principais:

— a compreensão de que alguns princípios filosóficos da Maçonaria são incompatíveis com a doutrina católica;

— a preocupação com o relativismo religioso, decorrente da convivência de pessoas de diferentes crenças sob uma mesma fraternidade;

— a existência de juramentos iniciáticos e do caráter reservado de determinados rituais;

— conflitos históricos entre setores maçônicos e instituições eclesiásticas, especialmente nos séculos XVIII e XIX;

— diferentes concepções acerca da autoridade moral, da verdade religiosa e da relação entre razão e fé.

Esses fatores explicam por que a Igreja mantém, até hoje, sua posição doutrinária, independentemente da realidade vivida pelas diversas obediências maçônicas em diferentes países.

A compreensão da Maçonaria

Por sua vez, a Maçonaria afirma não ser uma religião nem pretende substituí-la. Define-se como uma instituição iniciática, filosófica, fraternal e filantrópica, dedicada ao aperfeiçoamento moral do ser humano.

Seus princípios tradicionais valorizam:

— a liberdade de consciência;

— a tolerância religiosa;

— a fraternidade universal;

— o respeito às leis;

— o aperfeiçoamento moral e intelectual;

— a prática da beneficência.

Em muitas obediências maçônicas convivem pessoas pertencentes às mais diversas tradições religiosas, sem que lhes seja exigido abandonar sua fé.

O fortalecimento institucional como resposta

Surge, então, uma questão relevante: seria desejável que a Maçonaria ampliasse seu poder institucional como forma de enfrentar a oposição das religiões?

A resposta exige prudência.

Caso o fortalecimento institucional tenha como finalidade ampliar ações beneficentes, educativas, culturais e científicas, contribuir para o desenvolvimento ético da sociedade e tornar mais transparente sua atuação, esse crescimento pode representar um benefício para toda a comunidade.

Entretanto, se o fortalecimento for concebido como instrumento de enfrentamento ou de dissuasão contra instituições religiosas, corre-se o risco de alimentar uma lógica de confronto incompatível tanto com os ideais maçônicos quanto com os princípios democráticos de convivência entre diferentes convicções.

O verdadeiro prestígio de qualquer instituição nasce muito mais da credibilidade de suas ações do que da expansão de sua influência.

A liberdade religiosa como patrimônio comum

As democracias contemporâneas reconhecem que nenhuma instituição possui o monopólio absoluto da vida pública.

Religiões, associações filosóficas e organizações civis exercem papéis distintos e complementares.

A liberdade de religião inclui tanto o direito de professar uma fé quanto o direito de participar de associações filosóficas legítimas. Da mesma forma, uma instituição religiosa possui o direito de definir, segundo sua própria doutrina, quais práticas considera compatíveis com sua fé.

O desafio consiste em preservar esses direitos sem transformar divergências doutrinárias em hostilidade permanente.

Construindo pontes de entendimento

Embora as diferenças teológicas permaneçam, existem inúmeros valores compartilhados que podem servir de base para um diálogo respeitoso.

Entre eles destacam-se:

— a dignidade da pessoa humana;

— a promoção da justiça;

— a solidariedade;

— a defesa da liberdade;

— o combate à pobreza;

— a educação;

— a promoção da paz;

— o respeito às leis e às instituições democráticas.

A construção dessas pontes pode ocorrer mediante diversas iniciativas:

1. Reconhecimento da autonomia institucional

Cada instituição deve ser respeitada em sua identidade, sem pretensão de converter ou deslegitimar a outra.

2. Diálogo permanente

O conhecimento reduz preconceitos. Conversas acadêmicas, históricas e culturais ajudam a substituir mitos por informações verificáveis.

3. Cooperação em causas comuns

Projetos sociais, ações beneficentes, campanhas de saúde, educação e assistência humanitária podem unir pessoas de diferentes convicções em torno do bem comum.

4. Transparência

Quanto maior a clareza sobre objetivos, princípios e formas de atuação, menores tendem a ser os espaços para suspeitas infundadas.

5. Cultura da tolerância

A verdadeira tolerância não exige concordância. Exige apenas o reconhecimento da dignidade do outro e de seu direito de pensar de forma diferente.

Conclusão

A história demonstra que antagonismos prolongados raramente produzem vencedores duradouros. Em contrapartida, o diálogo respeitoso fortalece a convivência e amplia as possibilidades de cooperação.

A Igreja Católica permanecerá fiel à sua doutrina, assim como a Maçonaria continuará afirmando sua identidade filosófica e iniciática. Essas diferenças dificilmente desaparecerão, mas não precisam impedir uma convivência civilizada.

No século XXI, o verdadeiro desafio não consiste em saber qual instituição exercerá maior influência, mas em descobrir como diferentes tradições podem colaborar para a construção de uma sociedade mais justa, livre, ética e solidária.

Talvez a ponte mais sólida entre essas correntes de pensamento seja o reconhecimento de que nenhuma organização, isoladamente, esgota a busca pela verdade nem o compromisso com o bem comum. Quando a firmeza das convicções se alia ao respeito pela liberdade de consciência, a divergência deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma oportunidade de crescimento mútuo. Nesse horizonte, Maçonaria e religiões podem permanecer fiéis às suas identidades, sem renunciar ao diálogo, à cooperação e à promoção da dignidade humana.

OBS. A dicotomia Maçonaria e Religião: Entre a Divergência Histórica e a Construção do Diálogo, pode e deve ser refletida em outros contextos.

Economista, Advogado

Doutor pela USP – Universidade de São Paulo.

Ex-professor da UFS – Universidade Federal de Sergipe, da UNIT- Universidade Tiradentes.

Ex-professor da AFA – Academia da Força Aérea.

Ex-professor da UNINTER- Universidade Internacional Três Fronteiras ( Ciudad del Lest – Paraguai).

Piloto de aeronave experimental (Ultra leve)

Escritor, Articulista.

Mestre Maçom filiado a ARLS Clodomir Silva N⁰.1.477.

Secretário de Educação e Cultura do GOB – Grande Oriente do Brasil – Sergipe.

Uma resposta

  1. Muito claro seu artigo meu Pod:. Ir:. Figueiroa. Lamentável que não exista uma posição entre os evangélicos e de tradição reformada, batista, pentecostal e neopentecostal frequentemente condenam ou desaconselham a filiação na Maçonaria, alegando preocupações com juramentos, simbolismo e aspectos religiosos presentes nos rituais. Outras denominações deixam a decisão à consciência do fiel. Uma pena que desconhecem ou não saibam a forte influência da Maçonaria com a chegada dos Batistas inicialmente no Brasil que os acolheram quando vindo dos EUA. A Maçonaria teve uma forte aliança e papel de apoio na chegada e consolidação do protestantismo (historicamentre chamado de protestantismo de missão) no Brasil Imperial durante o século XIX. Isso precisava chegar até eles. Tem um artigo nosso, com um Irmão Batista, escrito exatamente sobre isso no “Maçonaria Para Todos V”. Parabéns!

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